Estar de volta de nada significa se você não está onde pensa estar. Ou queria estar. A dificuldade de lidar com o presente é um presente mais que amargo trazido sem ordem e frete grátis. Perdura a sensação de vazio. O constante descontentamento de nada adoça um momento sequer, onde desconsidera-se todas as variáveis. Não há variáveis. É que todas as constantes já encheram o saco. Pensar que a vida feliz foi aquela que já se fora, deixando para trás apenas fotos. Somente fotos, caso sua memória seja uma supernova em si mesma; expandindo-se ao infinito, voltando à sua insignificância e explodindo, causando nada mais que um buraco negro, o qual hoje chamo de sonho. Nem me lembro de detalhes.
O tabaco e a pashmina vieram na mala e o cheiro impregnado — o único — é o do ar que me trouxe de volta. A coleção de chaveiros cujo propósito fora abstraído pois as portas não tinham chaves. A mala vazia.
Orquestras inteiras tocariam em desafio de levar-me à sintonia da gana minha. Mas a primeira nota de cada instrumento sairia desafinada. Talvez uma marcha fúnebre em nova vestimenta. Uma cor de sol nascente. Mas a primeira nota sairia desafinada. E nuvens de chuva seriam conjuradas, fantasiando meu decesso. Encovado vestindo um chapéu de São Patrício, se possível. Ou nem tocariam nada.
Mas de nada adiantaria morrer agora — a memória não seria suficiente pra manter sequer um sepulcro.
