Velando o esquecimento

Estar de volta de nada significa se você não está onde pensa estar. Ou queria estar. A dificuldade de lidar com o presente é um presente mais que amargo trazido sem ordem e frete grátis. Perdura a sensação de vazio. O constante descontentamento de nada adoça um momento sequer, onde desconsidera-se todas as variáveis. Não há variáveis. É que todas as constantes já encheram o saco. Pensar que a vida feliz foi aquela que já se fora, deixando para trás apenas fotos. Somente fotos, caso sua memória seja uma supernova em si mesma; expandindo-se ao infinito, voltando à sua insignificância e explodindo, causando nada mais que um buraco negro, o qual hoje chamo de sonho. Nem me lembro de detalhes.

O tabaco e a pashmina vieram na mala e o cheiro impregnado — o único — é o do ar que me trouxe de volta. A coleção de chaveiros cujo propósito fora abstraído pois as portas não tinham chaves. A mala vazia.

Orquestras inteiras tocariam em desafio de levar-me à sintonia da gana minha. Mas a primeira nota de cada instrumento sairia desafinada. Talvez uma marcha fúnebre em nova vestimenta. Uma cor de sol nascente. Mas a primeira nota sairia desafinada. E nuvens de chuva seriam conjuradas, fantasiando meu decesso. Encovado vestindo um chapéu de São Patrício, se possível. Ou nem tocariam nada.

Mas de nada adiantaria morrer agora — a memória não seria suficiente pra manter sequer um sepulcro.

Verdade Absoluta

Sempre estamos falando dos outros. Hoje no twitter alguém postou “falar ‘odeio gente burra’ não te faz mais inteligente” — por mais nobre que fosse o comentário, o autor não está fazendo nada mais que discorrer sobre outrem (como estou fazendo agora, não me levem a mal). Estamos sempre achando motivos defeitos em tudo e em todos a fim de ensaiar asertivas para motivo algum além parecermos mais razoáveis.

Verdade seja dita: não existe uma verdade. E isso eu tenho tatuado (literalmente; explico depois). Por mais miseráveis, pequenas, frágeis e burras possam parecer aos nossos olhos, todas as pessoas vivem e morrem na realidade delas, coisa que não compete ao entendimento de ninguém além delas mesmas. Eu mesmo gasto tempo demais analizando e procurando o que poderia ser mudado nos personagens que não criei.

“You can never say the wrong thing” – Chuck Palahniuk

Ou, aprofundando mais nessa imensidão, estamos certos o tempo todo. Para nós mesmos, mais precisamente. Em nossas mentes estamos sempre certos no momento em que agimos. Até mesmo para declarar um erro, nesse exato momento estamos certos que o certo a fazer é positivar o erro. Tá, parei.

Agregado à isso tudo, encontra-se o sentimentalismo, que entra em cena quando estamos demasiadamente preocupados com a vida de quem amamos. É (?) inerente ao ser humano inquietar-se perante uma situação de desequilíbrio envolvendo um ente querido. Mas (voltando à escuridão de Palahniuk), por mais puras que sejam nossas intenções, qualquer gesto ou palavra que achamos relevantes compartilhar são só e simplesmente espelhadas nas nossas verdades.

Não quero que ninguém mude nada, juro, pois essa é a minha verdade; que é absoluta, na qual eu sozinho sou o referencial.

Ser bonzinho é…

Depois que crescemos é que vemos que ser forçado à fazer as pazes não muda nada. Pode piorar, até. Não que “viver em harmonia” seja uma coisa ruim, mas a harmonia forçada realmente te traz paz ao espírito?

A convivência é uma das realidades mais duras a qual no propomos nos decorrer de nossas vidas. É uma escolha. Como um turista recém chegado a um país desconhecido vê-se entre morar  numa casa com dez pessoas e pagar um preço razoável e morar num lugarzinho só dele, pagando um absurdo. A escolha geralmente pende para o lado que menos fere o bolso.

Conviver com dez pessoas, a princípio, pode parecer legal; gente nova, novas culturas, línguas e experiências. Mas não estamos tratando apenas com pequenos diários escritos por quem um dia os teve em mãos, estamos lidando com seres humanos. Escrever em conjunto, uma página sequer desse diário, pode ser uma jornada árdua, principalmente para os que a palavra parece não ter significado algum em suas vidas. Esses apáticos que ser deixam ser rabiscados à gritos e berros e não impõem-se perante os abusos sofridos. São esses os primeiros a se incomodar com as desarmonia entre os outros. “We’re not here for a long time, we’re here for a good time” (não estamos aqui por muito tempo, estamos aqui para um bom tempo),  escutei alguém dizer durante uma desavença. E o mesmo poeta me diz amiúde que não aguenta mais dar cigarros para duas queridíssimas housemates. Deixar-se sugar é uma escolha sua mas, depois de exaurido em cigarros e argumentos, continuar vivendo de ‘good times‘ é pura irresponsabilidade consigo mesmo.

O ponto é: não se incomode com os problemas dos outros se os seus próprios te bastam. Se você ainda não se contenta com seus problemas, arranje mais alguns.

Dom Berlim

E o Berliner Dom, claro. O monstruoso monumento que por detrás da névoa grossa surgiu sem avisar me deu um susto bem bacana.

Berliner Dom

 

O que esperar de um frio de -9ºC e muita neve embaixo das botas recém-adiquiridas? Duas palavras resumem: puro amor. Apaixonei-me pela cidade e o que a mesma oferece. Sua estrutura simplista de ar meio-marrento, cores nada cálidas e cidadãos com cara de poucos amigos. Talvez seja também por isso que tanto me cativou a cidade. Senti-me inteiramente à vontade com a frieza e “quase lá” com o frio. Quero morar em Berlim, vos digo. Essa Senhora Cidade, que mostra as rugas da meia-idade com passado amargurado em cada face de meia (e inteira) idade — mas que hoje sorri como um tiozão divorciado de 45 que passa metade do seu tempo num puteiro — e no olho, aquele brilho maroto e nada ingênuo.

E no quesito que disseram ser o menos apreciável foi o que realmente me abocanhou: a comida. Pode ser que os salsichão alemão no pão (ão) venha um dia a enjoar, mas não é apenas disso que se trata. A fina culinária alemã encontra-se nos mercadões baratos do proletariado. Galpões que emanam o delicioso cheiro de cerveja, carnes, peixes e doces. Lugar onde o trabalhador vai todo dia para comer de pé num balcão de 1,5m de altura. “Gostaria de um pouco dessa coisa roxa, por favor”, disse eu antes da porção me ser servida. Uma porção do tamanho da minha cabeça da coisa roxa no prato, agora já era. “E batatas, por favor”, o que me renderam 3 batatas do tamanho de uma bola de futebol americano, cada uma. “Carne…? De porco.”, pra terminar, meio quilo de carne. Depois da singela refeição, uma fatia de torta de nozes pra fechar a hora do almoço com estilo — e o jardineiro é Jesus. Esta, do peso de um tijolo, necessitou de várias “árveres”, pois era pura noz. Tudo o que me propus a experimentar em Berlim surpreendeu-me sobremaneira; tudo com muito sabor e extremamente bem preparado.

Além da comida, das pessoas e da atmosfera, o que me fez gostar tanto da cidade, também, fora sua organização. Seu sistema de transporte extremamente eficiente e confortável. As ruas muito bem cuidadas, desde a limpeza até a sinalização. Não há maneira de se perder. O metrô, mais especificamente, me encantou com o conforto, além de atender toda a cidade com eficiência e rapidez.

Em cada esquina, em cada muro e em cada pedaço do que um dia fui um muro, vê-se uma terrível história de amor que um dia quase devastou a beleza do rosto dessa Senhora que, de tão amarguradamente fortalecida, chamo-a de Dom. A capital da Alemanha, Berlin, uma cidade que criaria meus filhos.

Sobre a morte do papel.

Se bem que a coisa toda funciona de maneira hereditária; sempre vi meu pai matando horas preciosas do seu tempo ocioso absorvendo informação de pequenos blocos de papel cheios de letras organizadas de maneira a formar palavras que, num conjunto de frases, contavam uma história. Sim, livros.

Nessas afirmações infundadas sobre a morte dos livros e jornais, comprazo-me em saber que as pessoas por detrás disso são provavelmente “novos-profissionais” de comunicação que cresceram num mundo sem livros, cujo o primeiro contato com os mesmos fora na escola, onde aprenderam a odiá-lo.  Não que seja uma coisa negativa as pessoas disporem de aparatos altamente tecnológicos para ter contato com o mundo das palavras escritas — muito pelo contrário. E estou longe de afirmar que isso tudo é modismo e que um e-reader nunca substituirá um livro impresso. Isso já está acontecendo, porém não como muitas pessoas vêm afirmando. Os e-readers estão apenas preenchendo uma lacuna à qual os livros nunca foi suficiente e atingindo as pessoas que não sentiam-se conectados de maneira alguma à fina arte de virar páginas.

Como afirmei em primeira instância, se crescemos vendo nossos pais a ler livros, provavelmente teremos mais intimidade com eles e, da mesma maneira, crescer rodeado de pixels te deixará mais confortável em frente a um Kindle ou iPad.

Ainda não conheci alguém que trocou a celulose pelo celular.

Pergunte-me amanhã.

Escrever à esmo, sem expectativas, sem procurar palavras bonitas, sem saber o que escrever. Há algum tempo havia me esquecido que tinha onde escrever o que penso. Há tempos tinha esquecido que não preciso de um espaço específico para escrever. Esqueci-me de escrever. Meio que proposital, digo; simplesmente não mais o quis fazer. Gosto de fazê-lo. Sinto vontade de escrever, mas sou vencido amiúde pela malograda fadiga prematura. Sinto isso constantemente, com tudo. Fundou-se em mim essa constante ansiedade perante o cotidiano; sentir ter o mundo nas costas, saber ter que completar tarefas e simplesmente ceder  à preguiça.  Não o ócio puro, mas atormentar-se tanto às tarefas infundidas, e frugalmente cair num desespero inerte. É um estado constante. E aterrador.Não dormir por sentir que ainda há coisas incompletas. Dormir com a esperança de um dia novo, um dia melhor. Hoje é mais um dia. Um dia como ontem. Veremos como se desvela o amanhã…

O filme é melhor

Não que o livro seja ruim – longe disso – mas prefiro o filme.

Apesar do título ser O leitor, apreciei a história melhor como expectador. Acho desnecessário citar as nominações ao Oscar, cuja categoria de Melhor Atriz abraçou Kate Winslet que, sem rasgação de seda – juro! – mereceu mesmo. Assim como é dispensável dizer que o livro também ganhou importantes prêmios e foi o primeiro livro alemão a encabeçar a lista de best-sellers do New York Times. Prefiro o filme.

Não sei bem o porquê dessa preferência, pois, segundo as estatísticas obviamente fictícias de um grande amigo, “96% dos filmes que surgiram de livros deixam a desejar”. E concordo com ele. São poucas as adaptações que suprem as expectativas dos fãs dos impressos.

Acho que uma coisa que me fez falta no livro foi o que a própria orelha da edição que possuo diz ser uma virtude se tratando do estilo do autor: “limpo e despido de imagens e diálogos desnecessários”. Senti-me um pouco solitário ao ler capítulos e mais capítulos sem diálogos, forçando-me a imaginar que num determinado ponto do livro ocorria um importante processo numa sala de tribunal. Já no filme: emoção. Do começo ao fim. O cara (Bernhard Schlink, o autor) tem as manhas ao tratar de erotismo. Afiadíssimo. Mas deve não gostar de bater um papo de vez em quando. Não precisava encher linguiça; bastava que os personagens tivessem suas próprias vozes. Não os senti como senti-os ao ver o filme.

Ademais, a história é realmente bonita e tocante. Se tiverem a oportunidade façam proveito de ambos os veículos (linguajar de comunicador, perdoem-me), e digam-me (por obséquio) o que acham. Ah, e tentem começar pelo começo: o livro, mesmo o filme sendo melhor.

SIM!

Há algum tempo assisti a Yes Man!, recente filme com Jim Carey. Legal, legal. Mesmo não gostando muito de Carey, ele sempre consegue me arrancar algumas risadas, acho que pelo exagero de feições horríveis.

Pois bem, como disse anteriormente, o filme é protagonizado por Jim Carey e divide a tela com Zooey Deschanel, atriz que particularmente gosto muito, não sei o porquê; talvez seja a simplicidade que emana dela. Suas falas, caras-e-bocas, olhares e tudoquantohá são de uma simplicidade que me cativam. Linda, a menina. Tem créditos também os outros atores, os quais não me lembro os nome e a preguiça me impede de jogar no Google pesquisar, mas que compõe o casting com suas atuações cômicas. O cara que interpreta o chefe de Carey é um figuraça. A história do filme é uma novidade à parte, ao menos para mim. Gostei muito do roteiro; a idéia de mudar totalmente de vida simplesmente por dizer SIM à tudo redeu uma película realmente divertida. A idéia é a seguinte: Carl descobre e resolve fazer parte de um seminário que ensina as pessoas a viverem de maneira plena. Às pessoas que dizem não, o destino lhes reserva desventuras, ao passo que às dizem sim a tudo, um universo de maravilhosas descobertas lhes é desvelado.

Tentemos aplicar isso em nossas vidas. É mais difícil do que parece, acreditem-me. É muito complicado abrir mão de suas preferências e convicções para “apenas” agir de maneira afirmativa à tudo. Mas uma coisa é certa, o SIM faz as coisas acontecerem. Não como no filme, é claro, mas reflitamos acerca disso por um momento. O NÃO é como um sinal vermelho no trânsito; é o pare. Quando dizemos não, continuamos como estávamos imediatamente antes de proferí-lo – não muda nada. Ou pior, antes de o sinal ficar vermelho, estávamos em movimento; avermelhou, parou. Já, quando permitimos que o sinal fique verde, quando nos deixamos prosseguir, aí sim – SIM! – as coisas acontecem. Aceitamos o novo, seguimos por um caminho, qualquer que este seja.

Ademais, pode ser até frutífero o ensinamento do filme, não que devamos anuir a tudo e a todos; longe disso. Mas o que podemos fazer por nós mesmos? Em quais caminhos devemos esverdear semáforos? Sabemos quais são. Contudo, continuamos a negar nossa própria progressão e deixamos de lado grandes realizações.

SIM parece-me ser a palavra de ordem atualmente. Tantas coisas a decidir, incluse para o bem mútuo. Devemos parar de apenas rever conceitos e realmente agir de forma consciente e responsável. Mas para isso tudo acontecer, devemos acreditar que podemos fazer a diferença. Deixo o desfecho para alguém que muito prezo e admiro:

YES WE CAN! – Barack Obama

OST

Hoje assiti (novamente) o filme Jumper, que conta a história de uma pessoa que pode estar em qualquer lugar do mundo com apenas um “salto” O filme em si é ruim. Tem bons efeitos especiais mas a narrativa é pobre e previsível. É o típico filme que garotões como eu gosta de ver, apenas pelo entretenimento. Mas uma coisa me chamou a atenção; uma coisa que não tinha prestado atenção da primeira vez que assiti; algo que geralmente dou muito valor num filme: a trilha sonora (Original Sound Track, em inglês). É incrível como uma boa música  pode transformar uma cena ou, até mesmo, o filme. Nada demais até certo ponto do filme, o garanhão arranjou uma linda potrinha, viajaram a Roma de primeira classe (afinal ela não podia saber dos pulinhos do rapaz), e lá, ao clima de mamma mia!, os pombinhos de surto se encontram arrancando as roupas um do outro; uma cena tão batida que só não passou despercebida por conta da linda menina de olhos amendoados e a música que preencheu a cena e, falando por mim, melhorou o filme uns 26%.  Look After You – The Fray é a música, que descobri depois de pegar um trecho do refrão e jogar no Google (!).

Nota: The Fray me é muito estimada, desde o lançamento do single Over My Head virei fã.

Tanto é verdadeira a minha afirmação que não passo um dia sequer ser ouvir Blue Foundation, cujo trabalho conheci por meio do filme – também não muito bom (o livro é massa!) – Crepúsculo e que já citei anteriormento. E não para por aí. Em Cruel Intentions conheci The Verve, em Prime ouvi pela primeira vez Ray LaMontagne, no cômico Little Nicky descobri a banda que hoje é minha favorita: Incubus. Outros exemplos de trilhas que incluo em minhas playlists, são as produzidas especialmente para um determinado filme. Um dos meu prediletos é James Newton Howard, compositor de easy listenings (fáceis de ouvir, em tradução livre) fantásticas para, coincidentemente, películas que acabaram tornando-se minhas preferidas, como Signs, The Village e muitos outros. Tá, tá, James também é o preferido de M. Night Shyamalan.

Muitos críticos diminuem o valor das trilhas sonoras ao seu valor comercial. Não deixa de ser verdade, já que muitas dessas músicas acabam tornando-se sucessos de vendas, tamanha a exposição dessas músicas, tamanho é o público que as ouve.

Comercial ou não, o papel das soundtracks, pra mim, é inserir o expectador no mood da batida; é envolver e emocionar cada um sentado à frente da telinha. Mesmo porque, no início do cinema, nada mais havia senão toda uma orquestra por detrás da telona.

Aos Amigos

Que são os amigos senão uma extensão de nós mesmo? São eles os nosso irmãos que deliberadamente temos ao nosso lado. Escolhemo-os e carregamo-os conosco para a vida, para o futuro. Amigos são fáceis de serem encontrados, basta querer um.

Há também os grandes amigos. Mas para ter grandes amigos tem que ter disposição. Para ter grandes amigos tem que ter habilidade. Para mantê-los, zelo e carinho demais ainda é pouco.

Diga-se de passagens que tenho muitos amigos. Poucos são grandes. Mas são esses que realmente importam, não é mesmo?

Disseram-me uma vez que é possível conhecer o caráter de um homem por seus amigos; e digo-vos que sou magnânimo – tenho amigos incrivelmente faustos, acreditem-me.

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