E o Berliner Dom, claro. O monstruoso monumento que por detrás da névoa grossa surgiu sem avisar me deu um susto bem bacana.
O que esperar de um frio de -9ºC e muita neve embaixo das botas recém-adiquiridas? Duas palavras resumem: puro amor. Apaixonei-me pela cidade e o que a mesma oferece. Sua estrutura simplista de ar meio-marrento, cores nada cálidas e cidadãos com cara de poucos amigos. Talvez seja também por isso que tanto me cativou a cidade. Senti-me inteiramente à vontade com a frieza e “quase lá” com o frio. Quero morar em Berlim, vos digo. Essa Senhora Cidade, que mostra as rugas da meia-idade com passado amargurado em cada face de meia (e inteira) idade — mas que hoje sorri como um tiozão divorciado de 45 que passa metade do seu tempo num puteiro — e no olho, aquele brilho maroto e nada ingênuo.
E no quesito que disseram ser o menos apreciável foi o que realmente me abocanhou: a comida. Pode ser que os salsichão alemão no pão (ão) venha um dia a enjoar, mas não é apenas disso que se trata. A fina culinária alemã encontra-se nos mercadões baratos do proletariado. Galpões que emanam o delicioso cheiro de cerveja, carnes, peixes e doces. Lugar onde o trabalhador vai todo dia para comer de pé num balcão de 1,5m de altura. “Gostaria de um pouco dessa coisa roxa, por favor”, disse eu antes da porção me ser servida. Uma porção do tamanho da minha cabeça da coisa roxa no prato, agora já era. “E batatas, por favor”, o que me renderam 3 batatas do tamanho de uma bola de futebol americano, cada uma. “Carne…? De porco.”, pra terminar, meio quilo de carne. Depois da singela refeição, uma fatia de torta de nozes pra fechar a hora do almoço com estilo — e o jardineiro é Jesus. Esta, do peso de um tijolo, necessitou de várias “árveres”, pois era pura noz. Tudo o que me propus a experimentar em Berlim surpreendeu-me sobremaneira; tudo com muito sabor e extremamente bem preparado.
Além da comida, das pessoas e da atmosfera, o que me fez gostar tanto da cidade, também, fora sua organização. Seu sistema de transporte extremamente eficiente e confortável. As ruas muito bem cuidadas, desde a limpeza até a sinalização. Não há maneira de se perder. O metrô, mais especificamente, me encantou com o conforto, além de atender toda a cidade com eficiência e rapidez.
Em cada esquina, em cada muro e em cada pedaço do que um dia fui um muro, vê-se uma terrível história de amor que um dia quase devastou a beleza do rosto dessa Senhora que, de tão amarguradamente fortalecida, chamo-a de Dom. A capital da Alemanha, Berlin, uma cidade que criaria meus filhos.
